De medo e de ratos

Pintura de Rob Gonsalves

 

Um país que assiste impávido aos impunes desfalques brutais na Caixa Geral de Depósitos, no BES/Novo Banco ou no Banif pela camarilha que manda nisto tudo e que se escuda nos partidos;

Um país que assiste passivamente à promiscuidade entre governos, políticos e banca com as consequências que se conhecem;

Um país em que ministros mentem descaradamente ao povo que dizem servir;

Um país em que o poder legislativo é levianamente delegado a escritórios de advogados privados;

Um país em que especialistas em esconder dinheiro privado em offshores exercem cargos de responsabilidade no ministério da finanças públicas;

Um país em que procuradores da república se deixam subornar por cleptocratas estrangeiros;

Um país em que desaparecem armas, munições e carregadores das sua polícia de segurança pública sem que ninguém dê por nada;

Um país em que escolas degradadas põem em risco a integridade física das suas crianças e dos seus jovens;

Um país em que se passa um frio de rachar nas escolas e em que idosos morrem de frio, porque a electricidade e o gás são inexplicavelmente os mais caros da Europa;

Um país que é não só é um mais envelhecidos da UE, mas do mundo, mas cujas finanças públicas continuam a suportar abortos porque sim, sem qualquer justificação;

Um país que se dá ainda escandalosamente ao luxo de subsidiar abortos nos países ditos do Terceiro Mundo;

Um país em que mais de um milhão de idosos vivem sós, em companhia de outros idosos ou estão institucionalizados em condições precárias;

Um país que anda a discutir despudoradamente a eutanásia, sem ter sequer redes de cuidados continuados e paliativos para oferecer como alternativas a uma cultura de morte;

Um país que assiste passivamente à degradação do seu SNS e à promiscuidade que o corrói entre serviços públicos e o privados;

Um país em que desaparecem cirurgicamente documentos importantes por obra e graça do espírito santo;

Um país que assiste impávido ao êxodo de muitos dos seus jovens altamente qualificados;

Um país sem uma cultura de mérito que se rebaixa ao atribuir condecorações a gente mais que duvidosa;

Um país concentrado em questiúnculas de futebol;

Um país que não respeita a dignidade da vida humana;

Um país cujos valores e prioridades são avessos à mais elementar lógica do bom senso;

Um país agrilhoado e paralisado pelo medo, pela ditadura do politicamente correcto e pela desesperança;

 

É, decididamente, um país com o seu futuro comprometido,

pois, como vaticinava com lucidez Alexandre O’Neill:

 

«O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos.»

 

 

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Ética e princípios democráticos «à la carte»

A realidade política portuguesa tem demonstrado reiteradamente que padece de uma dualidade de critérios princípios éticos que tem vindo a miná-la e a desclassificá-la. Essa dualidade de critérios tem vindo a ser contudo tolerada ufanamente «à la carte» por muitos cidadãos afectos ao/s partido/s políticos que sustenta/m os diversos governos, como se de clubes de futebol se tratasse.

Seria expectável que os cidadãos-eleitores, hoje em dia aparentemente mais maduros e informados, também devido à rapidez com que a informação circula, exigissem «accountability» e coerência dos políticos que os representam. A arbitrariedade de critérios que tem vindo todavia a verificar-se no exercício de sucessivos poderes executivos, bem como as constantes cedências nos princípios em que deve assentar qualquer Democracia que se preze tendem a contaminar os outros poderes do Estado, designadamente o legislativo e o judicial. Os muitos casos que têm vindo a lume entre nós nas últimas décadas têm demonstrado a persistência dessa indesejável promiscuidade entre os três poderes do Estado, amiúde também alvo de manipulações espúrias por poderosos «lobbies» privados. Um desejável aperfeiçoamento da Democracia exige que a prática política seja objecto de um constante escrutínio ideologicamente isento, indisponível para ceder um milímetro nos princípios éticos, a começar pelo da igualdade de todos os cidadãos perante a lei.

O que está em causa no caso Centeno não é o ministro, nem a sua manifesta competência para o exercício do cargo que detém. O que está em causa no «facto alternativo» de Centeno — como nos «factos alternativos» de Sócrates, de «Jacinto Leite Capelo Rego», entre muitos outros de muito má memória — é uma tolerante cedência «à la carte» perante manifestos casos de promiscuidade, mais ou menos graves, entre os poderes do Estado e interesses privados que têm vindo a minar os alicerces da Democracia, a começar pelo princípio inalienável da igualdade perante a lei. Até onde e até quando é que estaremos dispostos a ceder e a branquear a dualidade de critérios no exercício dos poderes do Estado, como se de uma fatalidade se tratasse, nesta malfadada «nesga de terra debruada de mar»?

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Engenharia social a martelo? Sei que não vou por aí.

 

Um país de clima ameno onde se morre de frio, porque não há dinheiro para pagar aquecimento,

um país onde os meninos frequentam escolas geladas sem condições minimamente dignas,

um país em que as famílias se desunham a trabalhar sem conseguirem pagar as pesadas propinas para educar os seus filhos,

um país em cujos hospitais públicos falta material médico a todos os níveis,

um país com listas de espera vergonhosas para tratamentos e cirurgias urgentes,

um país cuja população nem sequer dispõe de uma rede de cuidados médico-dentários,

um país em que não há lares condignos para idosos,

um país em que não há dinheiro para pagar a médicos o suficiente para os manter nos hospitais públicos,

um país em que não há redes sustentadas de cuidados paliativos e de cuidados continuados para todos,

um país que, paradoxalmente, suporta o financiamento de cerca de 2.600 processos de averiguação de paternidade por ano,

este país, com as prioridades completamente invertidas, vai dar-se ao luxo de gastar 1,6 milhões de euros em centros de recolha de gâmetas (esperma e ovócitos).

Este país demencial não concede às crianças que resultam de gâmetas de dadores o direito de conhecerem a sua identidade biológica (ao contrário do que já acontece noutros países),

Este país refém de um relativismo simplório proíbe, no caso das barrigas de aluguer, que a mulher-incubadora fique com o bebé, com o argumento de que não é seu filho biológico.

Este país trata bebés e mulheres como mercadorias, considerando-os um bem disponível para o uso público.

É urgente contrariar os «cânticos negros». É fundamental travar engenharias sociais a martelo que representam um tremendo atraso civilizacional. Não sei por onde vou. Não sei por onde vou. Sei que não vou por aí!


Cântico Negro

«Vem por aqui» – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui!»
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

[…]

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: «vem por aqui!»?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

[…]

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

José Régio, in: «Poemas de Deus e do Diabo».

 

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Da tendência para o «nim» e de grosserias

 

Devo dizer que não gosto mesmo nada de uma certa tendência para o «nim» que tem vindo a verificar-se em certos artigos de opinião na imprensa periódica portuguesa de referência. Polvilhados de «bitaites» irónicos, geralmente bacocos, de argumentos dúbios e redigidos em linguagem e estilo pretensamente modernaços, esses artigos dão quase sempre uma no cravo e outra na ferradura, sem nunca acabarem por pender claramente para um dos lados. Há que manter uma certa dose de ambiguidade, sem ultrapassar o main stream politicamente correcto, não vá a coisa desagradar totalmente a gregos e a troianos. Há que saber manter todas as portas abertas! O pior (ou o melhor, depende do ponto de vista), contudo, é que muitas vezes nem os próprios autores sabem bem de que estão a falar. Convenhamos que esse tom intencionalmente ambíguo até dá um certo tom mais intelectual à coisa.

Não estou obviamente a defender, por outro lado, aqueles artigos inflamados que denotam uma visão simplista, a preto a branco, do mundo cada vez mais complexo em que vivemos. Estou a falar de artigos descomprometidos que, propositadamente, não são carne nem peixe. E que, por isso mesmo, tendem a suscitar (hélas!) polémicas completamente imbecis nas redes sociais, para gáudio dos seus vaidosos autores, geralmente ainda mais imbecis. Estou a falar de uma certa forma frouxa, mansa, pretensamente «pós-moderna» (seja lá o que isso for!) de escrever artigos de opinião. Na ânsia da inversão auto-encenada e fútil de estereótipos, esse género de artigos acabou por se estereotipar. Na verdade, como dizia Pessoa, «uma opinião é uma grosseria, mesmo quando não é sincera». E do que eu gosto mesmo é de «grosserias» destas, redigidas de forma clara, sem ambiguidades, e portadoras de pontos de vista fortes, objectivos, fundamentados, persuasivos e desassombrados. Do que eu gosto mesmo é de «grosserias» passíveis de me fazerem ponderar, e eventualmente mudar, as minhas próprias «grosserias». Felizmente, ainda há por aí muitas.

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Eutanásia ou homicídio consentido

1. É preciso sublinhar que a eutanásia é legal em apenas 3 países da União Europeia: Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Na Alemanha (onde o termo «eutanásia» é evitado, porque está associado às práticas eugénicas nazis), apenas é permitido o suicídio assistido (Beihilfe zum Suizid), que permite que o médico prescreva a droga letal, mas proíbe que alguém ajude o suicida a tomá-la, incluindo a segurar-lhe a mão. E, ao contrário do que acontece em Portugal, existe nestes países uma rede alargada, e de qualidade, de cuidados paliativos, de cuidados continuados e de equipamentos sociais de apoio à terceira idade.

2. «Morte assistida» é um eufemismo para eutanásia. Todos nós já temos direito à morte assistida, ou seja, de sermos acompanhados, tratados e acarinhados até ao último momento, por médicos e outros profissionais nos hospitais, ou pelas nossas famílias em casa. Falar de morte assistida como sinónimo de eutanásia é uma fraude, uma incomensurável hipocrisia. Eutanásia é morte provocada a outra pessoa, portanto, homicídio consentido, legal! «Suicídio assistido» é outro eufemismo para eutanásia. A pessoa que se suicida mata-se intencionalmente a si mesma. Ninguém proíbe ninguém de se suicidar. A eutanásia legitima, confere cobertura legal a algumas pessoas para matar outras. O que está em causa é dar cobertura legal a «profissionais de saúde», em instituições públicas ou privadas, para matar outro ser humano. O que está em causa é dar cobertura legal ao negócio da morte.

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Pôr o bebé fora com a água do banho? Da incoerente relação entre o público e o privado

Pôr o bebé água banho

Defendo intransigentemente uma Escola Pública de qualidade, plural, ideologicamente isenta, com projectos educativos consentâneos com o perfil social e cultural da população afecta à respectiva área de implantação. Só assim é possível envolver toda a comunidade e, em particular, pais e encarregados de educação na escola e, por extensão, em todo o processo de ensino/aprendizagem dos seus filhos e educandos. Por acaso, gostaria de saber onde estudam os filhos dos governantes que têm vindo a terreiro defender as virtudes da Escola Pública. Sempre estudei na Escola Pública, que, no meu tempo, em Aveiro, era considerada muito melhor do que a privada. Os meus filhos sempre estudaram em escolas públicas, em Coimbra, a partir do 4.º ano (antiga 4.ª classe). Um licenciou-se em Direito e o outro em Medicina, ambos por universidades públicas, e são hoje dois profissionais competentes e responsáveis.

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Engenharia social a martelo

Enenharia social

Cartão do Cidadão é uma coisa. Cartão da Cidadania tem um significado completamente diferente! O primeiro comprova apenas que quem o ostenta é cidadão de um Estado e que pode beneficiar dos direitos sociais e políticos que esse mesmo Estado confere indiscriminadamente a todos aqueles que nele nasceram ou nele se naturalizaram. Ora um Cartão da Cidadania implicaria uma outra dimensão muito importante: a prática efectiva e responsável dos deveres de cidadania. Ou seja, enquanto o Cartão de Cidadão pode ser  indiscriminadamente atribuído a corruptos, ladrões, assassinos, entre outros meliantes do mesmo género, o Cartão da Cidadania teria ser atribuído muito mais selectivamente, pois implicaria o reconhecimento da prática de um conjunto de valores sociais que decorre dos direitos e deveres de um cidadão.

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Os ficheiros do Panamá e Sísifo

Sisifo Ticiano

 

Eles relativizam tudo, metendo estratégica e hipocritamente tudo no mesmo saco! E assim vão logrando neutralizar o impacto político e social dos recém-descobertos ficheiros do Panamá. É claro que já todos sabíamos que há paraísos fiscais! É claro que já todos sabíamos que há fugas aos impostos! É claro que já todos sabíamos que há corrupção nos mundos da política, dos negócios, do futebol, etc. É claro que já todos sabíamos que é impossível acabar com os offshores! É claro que sim! Os ficheiros do Panamá revelam contudo dois factos muito importantes:

 

  1. Apresentam provas iniludíveis sobre quem usou os chamados paraísos fiscais, eventualmente sobre quem deveria ter pago honestamente impostos no seu país, e não o fez! Estamos a falar de gente muito pouco recomendável, sem quaisquer escrúpulos, que tem vindo a fugir ao dever cívico de pagar impostos, abalando assim democracias e prejudicando imperdoavelmente a vida de todos os seus concidadãos e respectivas famílias.
  2. Os ficheiros que vieram (e que ainda hão de vir) a lume põem igualmente a descoberto as negociatas criminosas de uma parte das «elites de lixo» de muitos países, negociatas essas que escondem tráfico de armas, de drogas, de obras de arte e até, eventualmente, de seres humanos.

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