Abaixo os agelastas.

Ao contrário do que insinua com o subtítulo do seu último livro, Ricardo Araújo Pereira (RAP) não redigiu um manual de escrita humorística. Escreveu, sim, um ensaio sobre o humor e a filosofia que lhe é subjacente.

Já o título do livro remete para alguns factos da vida com os quais não gostamos de brincar: a doença, o sofrimento e a morte. Gostei muito de o ler e a sua leitura despertou-me várias considerações; discorrerei sobre duas delas.

Desde o início, a vida dos profissionais de saúde é lidar com a doença, com o sofrimento e com a morte (talvez em menor dimensão para os que trabalham em obstetrícia e pediatria…). Fazer humor com a doença, ou com alguém doente, é tabu. Nenhum profissional de saúde sensato se atreve a ultrapassar a linha vermelha da brincadeira, particularmente quando o problema de saúde é sério. Esses gracejos seriam, certamente, muito mal recebidos por quem sofre. Qual é o limiar para a piada neste contexto? Provavelmente muito elevado. Daí, por pudor, educação, respeito ou temor, há que ter extremo cuidado com quem sofre, ou com quem se aproxima da morte.

Mas, como diz RAP, o humor pode ser uma estratégia para reagir ao sofrimento. Se virmos a coisa do ponto de vista dos profissionais, este esforço de empatia e de respeito por quem sofre pode ser um enorme motivo de angustia. Diário! É por isso que, depois do cuidado para com os outros, surgem momentos de descontração entre os profissionais sobre muitas situações do quotidiano, cómicas para uns, sérias para outros.

Os limites do humor nunca estarão totalmente definidos. Mas importa desdramatizar a doença grave e a morte (1.), e aceitar a brincadeira, que até pode ser terapêutica. Neste espaço, no futuro, contarei algumas situações divertidas pelas quais passei enquanto profissional.

Há um segundo aspecto que saliento da obra de RAP. Existem algumas centenas de filósofos determinantes para a cultura ocidental, mas Ricardo fala repetidamente de um filosofo ateniense do século V a.c. Existem largos milhares de obras de arte, mas Ricardo escolhe uma que retrata a morte de um filosofo ateniense do século V a.c. E se o humor é transversal a tudo na vida, existem milhares de milhões de assuntos que podem ser abordados na sua vertente humorística. Mas Ricardo resolve abordar o Panurgismo, que é uma corrente filosófica que defende a criação de dívidas. E qual é a relação entre o filósofo ateniense do século V a.c. e o Panurgismo? É fazer as contas…

Para terminar: RAP defende um conceito do qual sou partidário. Devemos rir-nos do facto de, por mais que façamos, por mais importantes que nos achemos, irmos morrer! E todos de paragem cardíaca.

  1. – sugiro a visita a https://cancrocomhumor.wordpress.com/
  2. – sugiro a leitura de A doença, o sofrimento e a morte entram num bar. Ricardo Araújo Pereira, Ed. Tinta da China, 2016.
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