A sedução de um espelho partido

A alegoria da sedução de um espelho partido nos remete ao questionamento da subjetividade humana na pós modernidade, na reconfiguração das identidades, valores sociais, cidadania, ideologia, discursos e práticas de vida. Vivemos uma era de revisão de valores, de muita mudança.

 Com o amplo emprego das tecnologias comunicativas, na era das redes sociais, o elemento imagético se transfigura como centro das atenções. Se no ápice da era moderna a questão era o ter, na atualidade o aparentar e o mostrar evidenciam o foco do crivo social emergente. Mas o que mostrar e o que é visível? A poética da imagem truncada, dos borrões de sombras distorcidas na realidade de um mundo observável, na alegoria das Cavernas de Platão é resignificada cotidianamente em nossa vivência nas redes porque o observável tem sua distorção em percepções fragmentadas, superficiais, em um espectro multifacetado, em uma somatória de pequenos vir a ser, na bricolagem de uma pseudo existência.

Hoje a identidade é composta de vários bocadinhos, uma colcha de retalhos cuja forma final evidencia o próprio espelho partido que nos seduz. Somos na uma intersecção de metades, de angústia, incompletude, de vazios sobrepostos, entre ideologias e cenários sociais caóticos que muito pouco têm a dizer. A percepção atordoada da pós modernidade evidencia este cenário de muita importância para pouco assunto, deixando o mais relevante de lado: como seguir com a vida diante disso tudo? A individuação de Jung transformada em mercado ou mercadoria, que deveria representar o grande sonho individual e coletivo, na busca de auto realização, é revista como a nova pose para uma foto instantânea em alguma experiência sensória, destinada a construção de uma pseudo identidade em rede social,  no egoísmo pós moderno. Mas o que é mesmo que estamos discutindo?

A dificuldade de percepção das pessoas diante de seus próprios sonhos, de sua existência, de sua força vital, dos elementos significativos diante de sua própria história. A construção da vida afetiva, social e profissional. Elementos deixados de lado diante do atordoamento, da prisão criada pela série massiva de significantes que nos acorrentam à distorção nesta narrativa poética de  Bachelard, na qual elementos noturnos se confundem com formas diurnas evidenciam o caos. Não é de se estranhar, diante desse quadro, que ocorra uma epidemia ligada aos transtornos de ansiedade, depressão, fobias e paranoia que atenta até o presidente norte-americano. Natural, visto que a narrativa sem conteúdo se traveste de uma linha vazia no eterno aparentar. A crise pós moderna é evidenciada quando a persona toma o centro da personalidade de forma sombria. Quem aparenta ser, desfigurando a profundidade de uma vivência afetiva significativa, pode recorrer a uma dose de bebida que apague suas angústias em curto prazo. Só que este ato produz uma conta ao final nem um pouco saborosa. É a nau da existência à deriva na eterna imprecisão do navegar, uma bússola sem norte, a noite escura das almas – de São João da Cruz -, um talvez ou a opinião que nada diz, apenas repete o que já foi dito fora do contexto e de um tempo histórico definido.

Este mergulho da atualidade em uma nova era das trevas, com significativos elementos feudais, fundamentalistas, na evidência da brutalidade, da paranoia coletiva e pessoal, também nos mostra a evidente crise neurótica na qual a criatividade foi delimitada ao ato de não se pensar. Eu traduziria nossa crise atual como um distanciamento do instinto de criatividade que requer cuidado, carinho, zelo, persistência, e perspicácia nas percepções de mundo. Criar implica em saber o que já foi criado, inovar, ir além. Mas quem se atreve a pensar diferente do já pensado diante do avassalador patrulhamento ideológico? Qual o cientista tem liberdade para criar? Correntes e calabouços… muitos calam-se por que hão de se incomodar.

Uma das principais atribuições da psicologia junguiana está em fazer uma leitura sistêmica sobre os fenômenos sociais provocando a reflexão crítica a partir da obra de C. G. Jung e de outros pensadores da psicologia analítica, da psicanálise, da psicologia clínica, questionando os fenômenos atuais do mundo e da região geográfica  em que vivemos, abarcando os fenômenos sobre um prisma multidisciplinar.

É imperioso rever a criatividade como meta, reavivar o espírito desbravador. É necessário comungar com os sonhos para que se revisite os ideais de vida primeiro para empreender a jornada interior, e depois traçar os rumos da jornada diante dos desafios do mundo, compreender a distorção de valores diante desse espelho partido que é nossa existência e diferenciar as imagens que atordoam nosso espírito. Há um mundo lá fora que precisa ser descoberto, mas para tal empreita faz-se necessário abrir os olhos para perceber o mundo como ele realmente é.

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